“ (…) Se não sabes para onde vais, não importa o caminho (…)”
Na obra Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, há um diálogo simples, metafórico e que do meu ponto de vista nos inspira a uma leitura profundamente psicológica. Vejamos… Alice pergunta ao Gato de Cheshire que caminho deve seguir. O gato responde que depende de para onde quer ir. “Não me importa muito onde…” – diz Alice. “Então não importa o caminho”, conclui o gato.
A ciência psicológica atual diz-nos que importa — e muito! Recentemente, e numa conversa entre colegas refletíamos sobre esta questão…escolhas, tomadas de decisão, mudanças, alinhamento entre valores e ações, essência, autenticidade e genuinidade – o caminho a percorrer no autoconhecimento e o encontro com a essência e a autenticidade de cada um de nós.
A investigação das últimas décadas tem demonstrado que o propósito de vida é um dos pilares centrais do bem-estar psicológico. O “propósito na vida” constitui uma dimensão essencial do funcionamento saudável, ao lado da autonomia, crescimento pessoal e relações positivas. Pessoas que percecionam a sua vida como orientada por objetivos significativos apresentam maior estabilidade emocional, menor sintomatologia depressiva e maior satisfação global. Mas o que é, afinal, propósito?
Alguns autores, na psicologia, definem propósito como uma intenção estável e significativa de alcançar algo que é simultaneamente relevante para o próprio, mas que vai para além do interesse exclusivamente individual…
Não se trata apenas de metas. Trata-se de direção com significado.
Estudos longitudinais mostram que indivíduos com maior sentido de propósito apresentam melhores indicadores de saúde física, menor risco de mortalidade precoce e maior capacidade de adaptação a adversidades. O propósito organiza comportamento, prioriza energia e sustenta a persistência, assumindo assim uma função reguladora.
Do ponto de vista motivacional, a Teoria da Autodeterminação- de Edward Deci e Richard Ryan ajuda-nos a compreender este fenómeno. O ser humano necessita de três necessidades psicológicas básicas: autonomia (sentir que escolhe), competência (sentir que é capaz) e relação (sentir que pertence). O propósito emerge quando estas três dimensões se alinham, desejavelmente. Quando aquilo que fazemos é escolhido, significativo e conectado aos outros, transforma-se em potencial, traduzindo-se em ganhos e relevância psicológica.
No livro – O homem em busca de um sentido (permitam-me a recomendação de leitura, à luz da sua experiência e abordagem terapêutica existencial) – de Viktor Frankl defende que a motivação central do ser humano é a busca de sentido. A partir da sua experiência nos campos de concentração, argumenta que aqueles que mantinham um “porquê” para viver — um amor, um projeto, uma convicção — demonstravam maior resistência psicológica face ao sofrimento extremo. Para o autor, o propósito não depende apenas das circunstâncias externas, mas da liberdade interior de escolher a atitude perante elas. O sentido pode ser encontrado na realização de algo, no amor ou na forma como se enfrenta o sofrimento inevitável. Mesmo em condições limite, a vida conserva potencial de significado. Em momentos de crise, o propósito atua como uma âncora e bussola. Como bem notou Viktor Frankl quem possui um “porquê” para viver consegue suportar quase qualquer “como“.
Assim, o propósito de vida surge como eixo organizador da existência, fonte de resiliência e expressão de responsabilidade pessoal perante a própria vida.
As neurociências trazem ainda outros contributos. A construção de sentido envolve redes cerebrais associadas ao córtex pré-frontal —área cerebral responsável pelo planeamento e pela tomada de decisão — e sistemas dopaminérgicos ligados à motivação e recompensa. Quando as nossas ações (comportamento) estão alinhadas com valores pessoais (valores, princípios) há maior ativação dos circuitos de motivação intrínseca. Em termos simples: o cérebro despende energia onde encontra e percebe significado.
Muitas vezes, perdemo-nos como Alice… Sem direção, qualquer caminho serve. Mas a ausência de direção tem custos psicológicos. A literatura associa a falta de propósito a maior vulnerabilidade à depressão, desmotivação e sensação de vazio existencial. Não porque faltem tarefas, mas porque falta coerência (alinhamento entre valores e ações), sendo esse o caminho que desejavelmente devemos percorrer no curso da vida- coerência, consistência consciente.
Importa, no entanto, desconstruir uma assunção comum: propósito não é encontrar “a grande missão da vida”. A investigação mostra que o propósito é construído progressivamente, através de exploração, tentativa, erro e reflexão, ação, mudança, definição de objetivos. Perguntar “para onde vou?” pode parecer simples, mas não o é. Mas psicologicamente é estruturante – define prioridades, orienta decisões e regula o empenho. O sofrimento, quando surge, deixa de ser pesado e ser um obstáculo inultrapassável e pode, potencialmente, ser visto e ser parte de um percurso escolhido.
Talvez a pergunta central não seja “qual é o meu destino final?”, mas “que direção faz sentido nesta fase da minha vida?”. O propósito não precisa de ser grandioso. Precisa de ser coerente e autêntico, alinhado com os valores que são bússola e ações que praticamos numa dança e equilíbrios desejados.
“(…) Se não sabemos para onde vamos, qualquer caminho serve (…)” … Mas quando começamos a definir o nosso “para quê”, o caminho ganha sentido — e a vida deixa de ser apenas movimento para se tornar direção em construção e a expressão consciente da responsabilidade que assumimos perante a nossa própria vida.

Dra. Carla Moreira cédula profissional n. 05077, emitida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses

