Valor Sentimental” (Sentimental Value) é um filme norueguês, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026. “… Sob a realização Joachim Trier, um dos nomes mais reconhecidos do cinema contemporâneo da Noruega, conhecido também por obras como The Worst Person in the World. O filme insere-se na tradição escandinava de cinema intimista, centrado nas dinâmicas familiares, na memória e nas tensões emocionais nem sempre explícitas, porém subtis. Nada sabia acerca da narrativa da história contada no filme, do enredo, das personagens, mas foi a sugestão de um professor que me inspirou e instigou no imediato a curiosidade, que também vos quero passar, bem como o nome do filme – Valor sentimental. E às vezes é muito isto… escapam-nos coisas, pessoas, oportunidades, encontros – profundas e ricas que estão ali, à mão de semear, mas calha não as vemos com a clareza devida ou com a curiosidade e espontaneidade que deveriam pautar a nossa vida. Está num cinema perto de ti!
E arrisco-me, numa timidez arrojada, com o meu contributo sob forma de critica cinematográfica, numa perspetiva sistémica: o filme é mais do que uma narrativa sobre relações difíceis – é um retrato das dinâmicas invisíveis que organizam um sistema familiar; Vemos as personagens em cena com posições, alianças, lealdades e padrões que se repetem.
O modelo sistémico, desenvolvido por autores como Murray Bowen e Salvador Minuchin, parte de um princípio essencial: o comportamento de cada indivíduo só pode ser compreendido no contexto das relações em que está inserido. O sintoma nunca é apenas individual; é relacional. O sintoma é, potencialmente, a expressão de uma dificuldade, de um problema, de um sistema em mudança, em resistência à mesma, possivelmente, e/ou a linguagem encontrada para expressar a procura pela homeostase daquele face à caos e à experiência de crise. As tensões entre os membros da família não emergem do vazio. Carregam, antes uma narrativa e revelam padrões transgeracionais — expectativas implícitas, papéis cristalizados, silêncios herdados. A dificuldade em comunicar emoções de forma direta, por exemplo, pode ser vista como um padrão relacional instalado ao longo do tempo. O silêncio não é apenas ausência de palavras; é uma estratégia sistémica de regulação do conflito.
Um dos aspetos mais evidentes, numa leitura sistémica, é a presença de triangulações. Quando a tensão entre duas personagens se torna insuportável, surge frequentemente uma terceira posição — explícita ou simbólica — que absorve, tal como uma esponja, a ansiedade do e no sistema. Segundo Bowen, a triangulação é uma forma de reduzir tensão, mas mantém o padrão intacto. No filme, percebemos como certos conflitos nunca são resolvidos diretamente e que se deslocam.
Outro elemento central é o conceito de diferenciação do self. A capacidade de manter identidade própria sem romper emocionalmente com a família de origem é um dos maiores desafios das tarefas desenvolvimentais nas varias etapas do desenvolvimento do ser humano. As personagens parecem oscilar entre fusão emocional (excesso de lealdade, culpa, necessidade de aprovação) e corte emocional (distanciamento abrupto como tentativa de autonomia). Ambas são respostas compreensíveis a sistemas com elevada carga emocional.
A narrativa também evidencia fronteiras familiares pouco claras. Em alguns momentos, as fronteiras parecem difusas, com envolvimento emocional excessivo; noutros, tornam-se rígidas, impedindo intimidade genuína. A oscilação entre proximidade e afastamento leva à instabilidade relacional.
Do ponto de vista sistémico, o “valor sentimental” do título pode ser entendido como aquilo que mantém o sistema coeso: memórias, objetos, histórias partilhadas. Mas esses mesmos elementos funcionam como âncoras que dificultam mudança. A família preserva a continuidade, mesmo quando essa continuidade implica sofrimento (equilíbrio vs desiquilibrio do sistema).
O filme parece convidar-nos a uma reflexão importante: mudar um sistema implica tolerar desconforto. Quando uma personagem tenta alterar o padrão — expressando algo nunca dito ou recusando um papel habitual — o sistema reage. Pode haver resistência, conflito ou tentativa de restauração do equilíbrio anterior alimentando a tendência do sistema para manter estabilidade, mesmo que disfuncional.
Assim, Valor Sentimental não é apenas uma história sobre mágoas individuais. É uma representação de como os vínculos nos moldam, como herdamos formas de amar e de nos defender, e como a transformação exige coragem relacional.
À luz do modelo sistémico, o filme recorda-nos que ninguém muda sozinho. Quando um elemento se transforma, todo o sistema é convocado a reorganizar-se. E talvez o verdadeiro valor sentimental não esteja apenas no passado que se preserva, mas na capacidade de reescrever padrões para que o futuro seja diferente.
No filme, a narrativa constrói-se em torno de uma família que regressa — física e emocionalmente — a um passado que nunca foi verdadeiramente elaborado. O reencontro, motivado por um acontecimento (morte), torna-se o palco onde tensões antigas ganham nova expressão. O que está em jogo não é apenas um objeto ou uma herança afetiva; é o lugar de cada um dentro daquele sistema familiar. A história revela algo essencial: nenhuma personagem pode ser compreendida isoladamente. Cada reação, cada silêncio, cada explosão emocional é parte de uma dança relacional construída ao longo de anos.
A figura parental — emocionalmente distante, pouco disponível para validação afetiva — funciona como eixo organizador do sistema. Não é um “vilão” clássico; é antes alguém moldado por padrões anteriores, provavelmente herdados. A sua dificuldade em expressar afeto não surge do nada. No modelo sistémico, falamos de transmissão transgeracional: padrões emocionais que atravessam gerações, muitas vezes sem consciência.
Os filhos, por sua vez, ocupam posições complementares. Um tende a confrontar, a verbalizar o ressentimento acumulado, assumindo quase o papel de “porta-voz” do conflito. Outro recua, adapta-se, tenta manter a estabilidade. Esta distribuição de papéis não é aleatória; é uma forma de o sistema preservar equilíbrio. Quando um elemento aumenta a tensão, outro tenta reduzi-la. É o princípio da homeostase familiar.
Ao longo da narrativa, vemos triangulações subtis. Quando o conflito entre dois membros se intensifica, um terceiro é convocado — às vezes através de alianças silenciosas, outras vezes através de memórias partilhadas que desviam o foco da tensão principal. Segundo Bowen, a triangulação é uma estratégia para aliviar ansiedade, mas tem um custo: impede o confronto direto e perpetua padrões.
O “valor sentimental” que dá título ao filme — seja um objeto, uma casa ou uma memória — funciona como metáfora sistémica. Representa aquilo que mantém a família ligada, mas também presa. O apego ao passado não é apenas saudade; é identidade. Mudar implicaria não só reorganizar relações, mas redefinir quem cada um é naquele contexto.
Um dos momentos mais significativos da história surge quando uma das personagens tenta quebrar o padrão — expressando dor de forma direta, recusando um papel habitual ou colocando limites. É aí que o sistema reage. A resistência é quase palpável. No modelo sistémico, compreendemos que qualquer tentativa de diferenciação do self — a capacidade de manter identidade própria sem romper emocionalmente com a família — provoca instabilidade temporária. O sistema prefere o conhecido, mesmo que seja disfuncional.
O filme não oferece soluções fáceis nem reconciliações idealizadas. Mostra, antes, a complexidade de amar dentro de um sistema carregado de expectativas implícitas. Mostra como o silêncio pode ser uma linguagem aprendida, como a crítica pode mascarar necessidade de reconhecimento, e como a distância pode ser uma forma de autoproteção.
A força de Valor Sentimental está precisamente nesta leitura relacional; há padrões que se repetem. Não há conflito isolado; há lealdades invisíveis que organizam e mantém comportamentos.
No final, a pergunta que permanece não é apenas se a família conseguirá reconciliar-se, mas se conseguirá reorganizar-se. Porque, como nos ensina o modelo sistémico, mudar não é apagar o passado, é antes criar novas formas de estar dentro dele.
Talvez o verdadeiro valor sentimental não esteja nos objetos herdados, mas na possibilidade de transformar o legado emocional. E isso, como o filme sugere com delicadeza, exige algo raro: coragem para sair do papel que sempre nos atribuíram e ainda assim permanecer em relação.

Dra. Carla Moreira cédula profissional n. 05077, emitida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses

