O divórcio cinzento (late-life divorce) refere-se à dissolução conjugal que ocorre em fases tardias do ciclo de vida, geralmente após os 50 anos, envolvendo casais com longos anos de casamento, muitas vezes depois da saída dos filhos de casa (fase do ninho vazio). Este tipo de divórcio ocorre, maioritariamente, em fases tardias do ciclo de vida familiar, sobretudo durante a transição para o ninho vazio ou já na etapa de envelhecimento ativo, tornando-se imprescindível analisá-lo à luz das tarefas desenvolvimentais específicas do casal.
De acordo com os modelos sistémicos do ciclo vital familiar, cada etapa do desenvolvimento familiar implica desafios normativos que exigem a capacidade e competências de reorganização emocional, relacional e estrutural. Durante a fase de família com filhos dependentes (ex., fase dos filhos pequenos, idade escolar) e mais tarde na adolescência – a tarefa central do casal consiste em articular a conjugalidade com a parentalidade, redistribuindo tempo, energia e recursos. Nesta etapa, é comum que a relação conjugal concorra em paralelo com exigências parentais, mantendo-se funcional, na gestão de tarefas em volta dos filhos, mas potencialmente menos investida emocionalmente. Os filhos crescem, tornam-se adolescentes (etapa potencialmente critica da vida familiar) e jovens adultos, conduzindo o casal ao retorno da díade inicial, mas num momento claramente diferente do jovem casal que já foi e da fase fusional experienciada e caraterística da fase inicial da relação.
Com efeito, a transição para a fase do ninho vazio marca uma mudança significativa no sistema familiar e, em particular na relação conjugal. A saída dos filhos de casa implica a redefinição das fronteiras familiares e convoca o casal para uma tarefa desenvolvimental exigente: a reconstrução da relação conjugal enquanto díade autónoma, agora desvinculada das funções parentais diretas. É neste momento que se avalia se o casal conseguiu, ao longo das fases anteriores, preservar uma base relacional sólida que sustente as etapas que virão.
À luz do modelo de John e Julie Gottman, esta tarefa desenvolvimental depende essencialmente da qualidade da amizade conjugal construída ao longo do tempo. A presença de mapas de amor, de admiração mútua e da capacidade de responder às tentativas de ligação emocional (bids for connection) constitui o alicerce que permite ao casal atravessar as transições do ciclo vital com flexibilidade, adaptabilidade e sucesso. Se estes processos não foram suficientemente trabalhados, identificados, partilhados e desenvolvidos, a fase do ninho vazio tende a expor fragilidades anteriormente amortecidas pela parentalidade, podendo fazer emergir momentos de crise e eventual rutura.
O divórcio cinzento pode, assim, ser compreendido como o resultado de um desalinhamento entre as tarefas desenvolvimentais do ciclo de vida familiar e os recursos relacionais e emocionais, disponíveis no casal. A investigação de Gottman demonstra que padrões como a evasão emocional, a defensividade crónica e, sobretudo, o desprezo, indiferença e distância emocional, ausência de apoio e suporte dos elementos do casal, nas respostas às exigências e dificuldades emergentes quer a nível individual quer a nível da família nuclear e/ou alargada, como sejam – doenças súbitas e inesperadas e/ou crónicas com evolução, natural processo de envelhecimento e desafios decorrentes e que concorrem com processos de envelhecimento esperados e normativos das gerações mais velhas (pais /avós), dependência e tempo disponível necessário de um dos elementos do casal e/ou ambos ao tornarem-se cuidadores informais, morte de familiares próximos e/ou amigos (lidar com a finitude, proximidade à geração mais velha) perda de emprego e transformações sociais e económicas e/ou outras decorrentes, exigências emocionais na gestão de todas estas tarefas caraterísticas e normativas e/ou inesperadas (doenças súbitas, perda de empregos, entre outras), como referimos – frequentemente expresso de forma subtil — podem potencialmente comprometer as competências do casal para se adaptar às exigências da maturidade relacional esperada. Crescer em casal é também compreender o crescimento em família nuclear e/ou alargada na responsabilidade afetiva que pauta o ciclo de vida da família. Crescer enquanto casal implica compreender que o desenvolvimento conjugal ocorre a par e em interdependência com o crescimento da família nuclear e/ou alargada, exigindo uma responsabilidade afetiva contínua que orienta e sustenta as diferentes etapas do ciclo de vida familiar. Não estar em sintonia com esta perspetiva é potencialmente enfrentar caminhos marcados por tensão e conflitos, indisponibilidade e reciprocidade emocional para com o outro, amplificando-os.
Na fase de envelhecimento, a principal tarefa desenvolvimental passa pela integração da história de vida, pela construção de significado e pela manutenção de vínculos emocionalmente seguros. Quando a relação conjugal deixa de cumprir esta função, o divórcio pode surgir como uma resposta adaptativa a uma tarefa desenvolvimental não resolvida. Neste sentido, o divórcio cinzento pode representar uma tentativa de reorganização individual a lidar com as exigências psicológicas desta etapa do ciclo vital, muitas vezes e frequentemente marcada por conflitos internos individuais congruente com as exigências psicológicas próprias da etapa da meia idade e da transição para a idade adulta avançada.
Trata-se de facto, de um período do ciclo vital frequentemente marcado por processos de balanço existencial, redefinição de papéis e confronto com a finitude, a morte, em que os indivíduos são convocados a reavaliar quem são, o que desejam e como pretendem viver os anos que se avizinham. Neste contexto, a relação conjugal pode deixar de funcionar como espaço de crescimento e passar a ser vivida como um espelho de estagnação e/ou perda de vitalidade. A necessidade de sentir-se novo, jovem e ainda sedutor surge, assim, não apenas como um desejo superficial, mas como uma expressão psicológica profunda de afirmação do eu, de resistência simbólica ao envelhecimento e aos papeis sociais frequentemente associados às etapas mais tardias da vida adulta, podendo despoletar crises profundas e a procura de resolução fora da relação e/ou noutras relações (busca por emoções novas, a procura do eu em outras etapas da vida, duma juventude anterior tão tipicamente marcada por paixões, novas emoções, o sentir-se vivo…) e neste linha de análise o divórcio pode aqui assumir o significado de uma tentativa de recuperação da identidade individual, na qual a busca por novidade, reconhecimento e desejo funciona como um marcador de continuidade identitária — “ainda sou alguém que deseja e é desejado”. Esta dinâmica é frequentemente intensificada em contextos onde os filhos já saíram de casa e a conjugalidade deixa de ser mediada pela parentalidade, expondo possíveis fragilidades relacionais anteriormente compensadas por tarefas familiares e rotinas partilhadas, como temos vindo a descrever na nossa análise.
Em suma, do ponto de vista do ciclo de vida familiar, esta fase exige uma reconfiguração da intimidade conjugal, baseada numa escolha renovada e não apenas na manutenção de papéis anteriores. Não se conseguindo uma resolução favorável deste dilema, o divórcio pode emergir como uma tentativa de alinhar as necessidades relacionais com as necessidades de renovação e vivencia emocional, reconhecimento e desejo.
Assim, mais do que um fracasso relação conjugal, o divórcio cinzento pode ser interpretado como um movimento de adaptação psicológica, em que a procura por juventude, novidade e sedução representa a tentativa de integrar passado, presente e futuro num sentido coerente de identidade, num momento do ciclo vital particularmente exigente em termos emocionais e existenciais, relacionais e familiares.
Esta leitura desafia conceções normativas sobre o sucesso da relação conjugal e sublinha a importância de uma intervenção preventiva ao longo de todo o ciclo de vida familiar. Mais do que a ausência de conflitos na relação, é a capacidade continua de reparação daqueles e das crises (e dentro da relação) que requerem atenção, trabalho e (re)construção permanente de significados (desde o inicio da relação conjugal), tendo por base a ideia de que as relações conjugais são sistemas dinâmicos que concorrem em paralelo com as transições do ciclo da vida familiar. Esta ideia permite-nos, na nossa perspetiva, compreender que a longevidade de uma relação conjugal está muito mais relacionada com a capacidade do casal evoluir de forma alinhada e em sintonia naquilo que são as vivências das tarefas caraterísticas de cada etapa da vida familiar e conjugal, a par das transformações individuais experienciadas. É um grande desafio!
Vale a pena pensar nisto!


