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Todos nós, um dia, já tivemos medos que hoje são apenas recordações remotas levemente assentes na nossa memória. O monstro que aparecia à noite, a sombra que se mexia quando nos levantávamos da cama, o barulho intermitente que nos causava uma curiosidade medrosa e o medo de estar longe dos pais… Isto acontece porque os medos fazem parte do normal desenvolvimento da criança e, na sua maioria, são transitórios e previsíveis, tendo até uma função adaptativa. No entanto, existem medos padrão para cada uma das fases do desenvolvimento de uma criança. A força e a persistência destes medos, muitas vezes, provocam uma interferência na rotina e na qualidade de vida da criança, passando o patamar da normalidade. Nesses casos, os medos podem tornar-se muito incomodativos, originando reações emocionais desagradáveis e até dolorosas. O medo pode estar a “dominar” a criança.

No caso de crianças que apresentam mais ansiedade, menor maturidade emocional, dificuldades em identificar, compreender e expressar as emoções/sentimentos, esses medos têm um tapete estendido para poderem desfilar até ao seu imaginário, facilitando construções mentais erradas e fantasiosas que não permitem que essas crianças se libertem desses medos.

Para ajudarmos as nossas crianças, é importante fazê-las entender que têm capacidade para vencer o medo, que não são obrigadas a cumprir tudo o que o medo quer que façam, que podem desobedecer-lhe e que o medo não manda nelas. Todavia, não podemos esquecer-nos que existe um “medo bom” que é aquele que nos ajuda a evitar situações de perigo que podem pôr em risco a nossa vida (ex. atravessar a estrada sem olhar para os lados, entrar numa jaula com leões famintos, etc.). E, no caso desse “medo bom”, a criança deve escutá-lo e obedecer-lhe uma vez que a sua função protetora é essencial para o nosso desenvolvimento e sobrevivência.

Portanto, temos de ajudar a criança a diferenciar quando tem de respeitar e seguir as indicações do medo e quando tem de lhe dizer um NÃO! A par disto, é essencial ensinar a criança a acalmar-se, a relaxar e a desconstruir estes medos, procurando entender a sua irracionalidade e racionalizando-os; é necessário dotar a criança de uma maior capacidade de reconhecimento e interpretação dos diferentes estados emocionais e apoiá-la nas suas inseguranças, tornando, assim, os medos mais fracos e menores, para que depois possam ser eliminados definitivamente de forma saudável e adaptativa.

Ricardo Ribeiro Silva, Psicólogo clínico

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